Caiu o ministério

*França Junior

Ilustração Irena Freitas

Cena 7

MARIQUINHAS: Lá vem a Filomena com a filhas.
DONA BÁRBARA: Olhe só como são metidas!
FILOMENA: Como está, Dona Bárbara?
DONA BÁRBARA: Como está, minha amiga?
MARIQUINHAS: Sempre bonita e interessante.
DONA BÁRBARA: E a senhora cada vez mais moça.
FILOMENA: São seus olhos.
FELICIANINHA: Como tem passado?
BEATRIZ: Não vi vocês no último baile. Todas as pessoas importantes do Rio de Janeiro estavam lá. O salão iluminado estava lindo.
FILOMENA: A Beatriz causou sensação.
DONA BÁRBARA: Ouvi falar a respeito.
FILOMENA: Pois saiu em todos os jornais, na Gazetinha, na Gazeta da Tarde, na Gazeta de Notícias…
BEATRIZ: Fui com um lindo vestido, com a saia inteiramente curta.
FELICIANINHA: Vestido curto para baile?
BEATRIZ: É a última moda.
MARIQUINHAS: Onde mandou fazer?
FILOMENA: Veio da Europa.
BEATRIZ: O costureiro inglês Worth que fez.
FILOMENA: Mas não vale a pena mandar vir vestidos da Europa. Chegam por um dinheirão. No Brasil ninguém admira
essas coisas.
BEATRIZ: Aqui o que apreciam é muita fita e muitas cores espantadas.
FELICIANINHA: Não é tanto assim.
DONA BÁRBARA: Na Europa também existem coisas ridículas. Não é só aqui.
BEATRIZ: Nunca vi isto por lá, pelo menos em Paris, onde estive.
MARIQUINHAS: Adeus, Dona Beatriz.
BEATRIZ: Até mais.
FILOMENA: Apareçam. Saibam que sou, fui e sempre serei amiga de vocês.
DONA BARBARA: Da mesma forma. E, se assim não fosse, a gente diria a vocês.
FILOMENA: É por isso é que as estimo e considero.

*Caiu o ministério, do escritor brasileiro França Junior, que viveu entre 1838 e 1890, é um texto de teatro que conta a história da sociedade carioca. Este trecho narra o encontro de duas famílias de mulheres que se tratam com grande falsidade. O texto foi livremente adaptado pela CHC.

Matéria publicada em 01.09.2022

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