Quando crescer, vou ser… paleoparasitologista!

Ilustração Bruna Martins

O que vermes, protozoários, bactérias, fungos e vírus têm em comum? São parasitas, isto é, seres que dependem de outras espécies para se alimentar e viver. Mas sabia que eles podem dar pistas valiosas sobre os hábitos de vida de pessoas e animais no passado, além de alertar para possíveis doenças do futuro? Sabemos de tudo isso graças aos paleoparasitologistas!

Esses profissionais pesquisam parasitos de milhares e milhares de anos atrás, lá da Pré-História, quando pessoas, animais e o próprio ambiente terrestre eram muito diferentes. “Estudar os parasitos das populações antigas diz muito sobre como as sociedades se organizavam, por quais modificações de ambiente passaram e como acompanharam as mudanças climáticas na Terra”, diz a pesquisadora Marcia Chame. “E isso é legal porque nos faz pensar no futuro: que mudanças fazemos hoje que podem nos levar a outros parasitismos e doenças?”, explica ela, que é curadora (responsável pelas peças que compõem uma exposição) da Coleção Paleoparasitológica e de Fezes Recentes, da Escola Nacional de Saúde Pública, e coordenadora da plataforma institucional Biodiversidade e Saúde Silvestre da Fiocruz.

Sítios arqueológicos

Nessa investigação, encontrar os parasitas antigos é o primeiro desafio. Afinal, aqui não é como no Egito, onde há múmias muito bem conservadas. Por aqui, os paleoparasitologistas trabalham bem perto dos arqueólogos, nos sítios arqueológicos. As principais bases de estudo são os coprólitos, o cocô mumificado ou fossilizado – isso mesmo! –, seja de pessoas ou de outros animais.

“O encontro dos parasitos ou de suas formas reprodutivas, como ovos e larvas, é essencial para a paleoparasitologia, e encontramos essas evidências nas fezes antigas”, diz Marcia. Desse material, os pesquisadores conseguem descobrir várias informações: o que comiam; como a alimentação variava, quais parasitos estavam ali…

Mapa da migração

É como montar um quebra-cabeças: uma peça leva à outra. Certa vez, lá na Serra da Capivara, no Piauí, pesquisadores descobriram em coprólitos de milhares de anos atrás os ovos de um verme que fazia parte do seu ciclo de vida no solo. Para isso, precisava de condições especiais, como um solo bem oxigenado e temperatura média de cerca de 24 graus. O que isso tem a ver com a nossa história?

“É uma prova biológica que reforça a ideia de que os humanos chegaram ao nosso continente por diferentes rotas migratórias. Esse é um exemplo de como os parasitos ajudam a desvendar partes da nossa história!”, diz Marcia.

Em outro estudo, pesquisadores encontraram evidências do protozoário Trypanosoma cruzi em esqueletos na região Andina, mostrando que a doença de Chagas é uma doença sul-americana e que já estava aqui há pelo menos 40 mil anos!

“Toda doença tem uma história. Ela pode estar muito bem controlada em um lugar, e, de repente, algo acontece e ela encontra as condições perfeitas para se espalhar. Isso está muito ligado à densidade da população humana, que aumenta, vive diferente. Nós damos oportunidade para que coisas assim aconteçam”, explica Marcia.

Quebra-cabeça

Os paleoparasitologistas trabalham em colaboração com arqueólogos, botânicos, virologistas, médicos, veterinários… Cada um pode contribuir com uma peça do quebra-cabeça. “É importante ter formação na área biológica, que dá a base para avançar nas várias perguntas que aparecem pelo caminho. E entender de botânica, ecologia, ecologia de parasitos… É uma vida bem dinâmica!”, diz Marcia. A rotina se divide entre trabalho de campo, laboratório e bibliotecas.

A tecnologia trouxe avanços, como a possibilidade da análise molecular dos parasitos, mas ainda faltam bancos de dados mais completos. “Quando pensamos nos animais e nas zoonoses [doenças transmitidas entre animais e pessoas] que podem ocorrer a partir de espécies que estão escondidas na natureza e que não conhecemos, ainda falta muita informação. E há poucos paleoparasitologistas no Brasil”, diz ela. Quem se anima?

Elisa Martins
Jornalista
Especial para a Ciência Hoje das Crianças

Matéria publicada em 01.04.2024

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